Não leve a mal

26 de dezembro de 2008
Esqueci
e-mails.
nomes.
telefones.
recados.
abraços.
brigas.
ligações.
tickets.
trocos.
cd's.

Ele, o meu computador,
tentou me avisar:
Memória Virtual Mínima Muito Baixa.
Eu, como sempre,
nem tratei de escutar.

Anti-conto de fim de ano

23 de dezembro de 2008
Antes que esse ano acabe eu viro as costas.
Sacudo a poeira dos pés.
Do passado levo apenas a lembrança do que poderia ter sido e não foi.
O que não foi eu guardo no lado avesso das roupas.
E se minha perna alcancasse, eu pulava do dia vinte e três para o dia dois, quando tudo volta ao normal e eu posso sentir o ar da ousadia nos meus pulmões.

Cola um selo e manda

16 de dezembro de 2008
Menina Azul,

Em terra quente, quando quase chove, até quem não queria viver germina. E se você quase vem dá até pra eu ensaiar um suorzinho na testa só pra ouvir seus comentários curiosos sobre o calor daqui da cidade.

Sinto saudade das nossas andanças pelo centro, de você fotografando cada árvore que encontrava no caminho, da nossa pressa pra você não perder o vôo, dessas coisas bestas que a gente lembra e dá aquele riso espontâneo de felicidade.

Suas cartas sempre cheias de novidades, das revistas que você usa para fazer os envelopes, de relatórios sobre o que você tem feito, os amores que conquistou viajando pelo país, as peças de teatro, as músicas que fazem você soltar sempre um 'queria que você estivesse aqui' a cada vez que nos falamos. Tudo me conforta e traz alegria.

Não se incomode com minhas respostas soltas, atrasadas e desalinhadas, às vezes tristes. Guardei um punhado de alegria pra quando estivermos num quiosque, naquele país onde você quer estar tanto quanto eu.

Das promessas para o novo ano levo a de nos vermos, quero ver se Belenzinho é bom mesmo como você diz ser.

Beijo imenso, fica aqui o meu registro de amizade e saudade.

Entre aspas

15 de dezembro de 2008
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior.

Vida nas veias

14 de dezembro de 2008
Eles discutem o preço da contribuição da festinha de natal enquanto abrem a minha pele. E puxam, e puxam, e costuram, e fecham. Eu até queria poder lembrá-los que ali era uma mesa de cirurgia e não uma mesa de bar, mas não pude.

A moça aprendiz de instrumentadora diz não saber preencher fichas e eles riem. Mais uma que não vai durar muito nos corredores do hospitalzinho capitalista, devem ter pensado.

Sala de repouso.

A mulher resmunga três vezes pra que eu mexa o meu pé. E eu fiz o maior esforço pra ver se mexia e, assim, chutar aquela cara de mulher mal paga e mal alimentada.

Dor. Dor. Dor.

Picadas pelo corpo. Reação à anestesia. Corre, enfermeira, traz uma injeção pra cortar o efeito.

Alta.

Nada pra (poder) fazer em casa.

Restam os livros, apostilas, música e este blog.

Voltei.

Na minha ausência

10 de dezembro de 2008
Deixe os bilhetes na geladeira ou na mesinha da sala.

212

Alto lá, Sra. 212.
Não sou paranóico por dramaturgias que não saíram do papel.
É que sempre fui bom com sintonias. E você, você parece nunca ter sido muito boa com antenas de rádio.

Isabela

9 de dezembro de 2008
Seus olhos brilham quando falo ao telefone como quem pede pra estar do outro lado e não pode.
Seu egoísmo não me quer na cama, espaçosa apenas para você e suas grandes almofadas.
Você é muito eu, sabia?

Sua tristeza não parece com a minha, dura só enquanto um novo abraço não vem.
E se chamo não me ouve, mergulhada em desobertas que lhe impedem de olhar em volta.
Você é muito ela, talvez.

O bocejo depois do sono

6 de dezembro de 2008
Quando se quebra a dormência de uma semente, ela só pensa em crescer e crescer.
Isso explica minha vontade desenfreada de escrever, escrever e escrever...
E é tão bom sentir isso outra vez.
Usufruir do punho agora.
A isso eu chamo de felicidade sem o dia seguinte.

Não Me Deixe Voltar

2 de dezembro de 2008
Eu digo oi como quem passa distraído e vê a porta aberta. Você responde como quem faz questão de não passar a chave só pra escutar o ranger da porta empurrada pelo vento. Trocamos historinhas casuais de nossas vidas. Você continua linda, digo. Um pé no passado e eu não percebia. O termômetro falhou. Tudo dentro de nós ferve e dizemos que o mundo está aquecendo por causa das geleiras.

Atiço suas verdades para mostrar as minhas. O beijo que você não deu lhe condena. Eu não voltei porque a janela estava fechada por dentro. Você não sabia, e eu te amava tanto que derrubava os talos dos coqueiros e espalhava o que houvesse no chão daquela pracinha no alto da ladeira. Por que o mapa que eu trazia na mochila não tinha a sua casa? Você e sua mania de se esconder.

Acabei mudando o rumo. Você também. A poesia que escondia em si nosso amor parecia ter morrido. Apenas dormia enquanto eu seguia meu caminho pensando em você. A madrugada nos mostra tudo o que poderia ter sido e não foi. O táxi, o farol e o Sr. Wonka são testemunhas de nós dois.

Sim, a poesia ainda flui e o que sentimos ainda pulsará por muito, muito tempo. Quando eu aparecer outra vez, deixe a janela encostada. E, pra não ficarmos apenas na memória do não vivenciado, por favor, não me deixe voltar.