Eu bem queria ser rei do sertão. Um que tivesse carroça e um jumento bem cuidado, desses que não precisam levar chicotadas pra andar. Os bobos da corte poderiam ser meninos que pegam carona embaixo da carroça, do mesmo jeito que eu fazia no meu tempo.
Mas meninos não correm mais atrás dessas coisas hoje em dia. E os jumentos estão mais raros - os bem cuidados, claro. Então meu reinado durou pouco. Só o tempo de eu esquecer a minha adultice (mania de sonhar pouco e se preocupar com as coisas sérias e chatas que só existem na vida dos adultos).
Essas coisas não duram muito e o mundo nos exige mudanças fortes. Mudei de amores e doeu. Mudei de blog e nunca mais fez sol. Abandonei histórias e como sangrou. Quase não sarou. Mudei de empregos, de família (formei uma), de ares, companhias e tudo ainda é tão estranho como o primeiro dia de aula no ensino médio.
Agora o monstro do esquecimento, da indiferença, me atormenta e ameaça. Incomoda não saber por onde anda quem tanto me cativou e despertou em mim ambição por novas amizades. Porque ter todos ao alcance da minha vista era ter o cabresto do caminho nas mãos e, assim, ser o rei do sertão: lá no alto, com amigos até onde a vista abarca.
Eles não estão mais lá, onde sempre podia encontrá-los com suas mesmas vidas. Eu já não uso as mesmas roupas de quando tinha dezesseis. Minha escrita enferrugada já não exibe a coesão das aulas de redação. Tudo segue o fluxo do mundo e dolorosamente percebo que não poderei mais ter aquela época de volta. Porque a vida não é fotografia e, caso fosse, teria todos os meus amigos numa moldura amarelada com uma data no canto. Tempo que eu era rei e não sabia.
Se eu fizer tristeza e sorrir, você nem vai desconfiar. Se eu puser uma canção triste, um rock de qualquer jeito, desalinhado, mal ensaiado, desses que começam na garagem e terminam na pia com ressaca, você nem vai saber que eu chorei.
Eu não chorei. Eu gritei por dentro e você continuou seu ritmozinho medíocre de acordar-trabalhar-comer-comprar-dormir-acordar. Eu gritei sim.
Deixe-me sozinho, como sempre deixou, que o silêncio da casa me fortalece. E quando sair, por favor, apague a luz.
Eu não chorei. Eu gritei por dentro e você continuou seu ritmozinho medíocre de acordar-trabalhar-comer-comprar-dormir-acordar. Eu gritei sim.
Deixe-me sozinho, como sempre deixou, que o silêncio da casa me fortalece. E quando sair, por favor, apague a luz.
Se você tem dois empregos e queria mais tempo pra arrumar o terceiro.
Se você pega o telefone e vê as chamadas perdidas dos seus amigos e não retornar.
Se eles é que não retornam mais.
Se você tem filhos e quase não os vê.
Se você sente saudade daquilo que não viveu.
Se você desaprendeu a caminhar no céu.
Então assista isso:
Se você pega o telefone e vê as chamadas perdidas dos seus amigos e não retornar.
Se eles é que não retornam mais.
Se você tem filhos e quase não os vê.
Se você sente saudade daquilo que não viveu.
Se você desaprendeu a caminhar no céu.
Então assista isso:
Ensaio. Ponho a coluna no lugar, meu melhor perfume no pescoço e desodorante que dure o dia todo. Arranho uma música baixo e dizem que falo sozinho. Calculo gestos descontraídos e expressões no rosto que te farão me achar interessante.
Me segura. Acho que estou caindo e não é a embriaguez. É essa ânsia de chegar logo. Quatro anos caminhando e calos nos pés, foi o que conquistei. Calos nos pés. Alguém aí tem cerveja? Estou com sede. Queria poder beber e ir trabalhar às oito. Mais leve. Mais solto. Sou todo solto. Eu sou o vento.
Então me solta. Já aprendi a voar.
Me segura. Acho que estou caindo e não é a embriaguez. É essa ânsia de chegar logo. Quatro anos caminhando e calos nos pés, foi o que conquistei. Calos nos pés. Alguém aí tem cerveja? Estou com sede. Queria poder beber e ir trabalhar às oito. Mais leve. Mais solto. Sou todo solto. Eu sou o vento.
Então me solta. Já aprendi a voar.
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