30 de março de 2008
Como um inseto, que em dia de frio voa ao redor da lâmpada procurando calor, você sai à procura de luz. Não há mapas a seguir e aquela casa na árvore que você tanto quis não passou de semente. Cada aperto de mão, cada batida nas costas, cada risada partilhada, cada olhar cruzado, por mais leve que seja, desperta em você o desejo fremente de invadir entranhas, desarmar suas defesas e ser apenas você, só você. Sem rótulos nem receio de se expor.

A estrada acaba e você, que por tanto tempo quis ser como vidro, transparente, mostra-se embaçado pelo calor que sai da boca que se aproxima e diz coisas agradáveis a qualquer ouvido.

Nada mais. Esse é o limite, a fronteira entre a sua e a outra carne. Então você voa em círculos. E como aquele inseto, com medo de se encostar e se queimar, você segue seu caminho e apenas olha.

Como Estou Dirigindo?

4 de março de 2008
Vê se acompanha a minha passada, o meu andar pra dentro. Percebe a minha mania de levantar a calça pelo passador? Fruto de dias mal comidos e sonos mal trabalhados. Percebe?

Diz pra mim do meu jeito desatento de ser. De não olhar pros lados quando vou atravessar a rua ou de não reconhecer as pessoas quando estou sem óculos. Diz e fotografa que é pra eu acreditar.

Escreve a minha fala pouca e comedida, como quem tem medo por falar demais e se retrai, mostrando o contrário. Mas grava a minha gargalhada recheada de frases soltas e cheias de nexo, de quando estou quase embriagado daquela única garrafa de cerveja que tomamos.

Fica um tempo de longe, observando como eu enfrento os meus dragões. Vê quantas espadas eu usei, com quantas feridas eu voltei e quem me ajudou, se foi São Jorge ou São Miguel.

Pega a minha mão e caminha um pouco ao meu lado. É que tem dias que a gente anda zonzo da claridade do céu e, mesmo sem ter um número de telefone gravado nas costas, só precisa de alguém pra nos dizer como estamos dirigindo.